sábado, 12 de fevereiro de 2011

Cultura é...

... assistir no CCB a três concertos do Ciclo A HORA DA ALMA. Este ciclo assinala o 80º aniversário de Sofia Gubaidulina, compositora russa, de etnía tártara. No dia 6/02, comecei por assistir no Grande Auditório ao concerto de "Geir Draugsvoll e OCP". Neste concerto ouvimos obras de Johann Sebastian Bach (1685-1750), Sofia Gubaidulina (1931) e Ludwig van Beethoven (1770-1827). De Bach, um ensemble dirigido pela cravista Ana Mafalda Castro, tocou o Concerto Brandeburguês nº 3, em Sol maior, BWV 1048, um dos seis concertos com este título, que o compositor escreveu entre 1718 e 1721, e dedicou ao margrave (marquês) Christian Ludwig von Brandenburg. Os Concertos de Brandenburg são considerados como expoentes da música barroca, por isso estarem entre os clássicos mais populares. Para finalizar a primeira parte do concerto, da homenageada, ouvimos Fachwerk, concerto para bayan (acordeão russo) e orquestra, peça estreada em 2009. Magnífica interpretação de Geir Draugsvoll e da O.C.P., dirigida por Pedro Carneiro. Esta obra foi dedicada pela compositora a Draugsvoll, considerado o mestre do bayan. Após o intervalo, a O.C.P. interpretou a Sinfonia nº 5, em Dó menor, Op. 67, de Beethoven, obra escrita entre 1804 e 1808 . Esta obra-mestra, escrita quase um século depois dos Concertos de Brandenburg, tem sido classificada como romântica, trágica, violenta, caótica e muito mais. É considerada um "monumento" da criação artistíca. Ao ouvir no mesmo concerto estas obras, de Bach e Beethoven, não podemos deixar de notar, por muito diferentes que as obras pareçam, que há algo em comum. No concerto seguinte, em 9/02, com o título "...para Gubaidulina", o DSCH-Schostakovich Ensemble e Sofia Gubaidulina, interpretaram obras de Anton Webern (1883-1945), Dmitri Schostakovich (1906-1975) e da própria Gubaidulina (1931). O concerto começou com o DSCH-Schostakovich Ensemble a interpretar do austríaco Webern, Seis Bagatelas, Op. 9, para quarteto de cordas, peças escritas em 1913. Este compositor fez parte, com Schoenberg, de quem foi aluno, e Alban Berg, da chamada Segunda Escola de Viena. Webern foi morto, em Salzburg, por um soldado norte americano durante a invasão dos aliados, em 1945. Antes do intervalo, de Schostakovich, ouvimos o Quinteto com piano, em Sol menor, Op.57. Peça escrita em 1940, foi estreada no mesmo ano, pelo Quarteto Beethoven de Moscovo, com o compositor ao piano. Após o intervalo, ouvimos três peças de Sofia Gubaidulina, a primeira, Reflections on the theme B-A-C-H, estreada em 2002, foi interpretada por um quarteto de cordas. O tema de B-A-C-H é o terceiro tema da última fuga da obra Arte da fuga, BWV 1080, de Bach. A segunda obra, Dancer on a tightrope (O funâmbulo), foi interpretada por Tatiana Samouil, no violino, e Filipe Pinto-Ribeiro, no piano. Nesta obra, o pianista começa a tocar com um copo sobre as cordas do piano, que nos transmite um som misterioso e inquietante. O terceiro e último tema, On the Edge of Abyss (À beira do abismo), foi tocado por 2 aquafones e 7 violoncelistas. Obra com um ambiente estranho e misterioso devido aos aquafones, tocados por Filipe Pinto-Ribeiro e Gubaidulina. Sempre que está presente na apresentação desta obra, como foi o caso, a compositora toca um dos aquafones. O aquafone é um ressonador cheio de água, com varetas de bronze afinadas, que são friccionadas por um arco, e ao mesmo tempo que é agitado, produz um som estranho, como se vozes de baleias se ouvissem ao longe, por isso um instrumento de sonoridades peculiares. Cada aquafone, que já chamaram de "sintetizador acústico", é peça única, pois o seu inventor, Richard Waters, um artista americano, só constroi por encomenda, gravando nele a data da sua construção. O "Concerto de Encerramento", realizado no dia 12/02, foi preenchido com obras de Ludwig van Beethoven (1770-1827) e Sofia Gubaidulina (1931). Neste concerto, a Orquestra Sinfónica Metropolitana e o pianista Filipe Pinto-Ribeiro, começaram por tocar, a Sinfonia nº 2, em Ré maior, Op. 36, de Beethoven. Com quatro andamentos, esta obra escrita entre 1801 e 1802, é muitas vezes designada como uma obra alegre e ligeira, dentro do classicismo de Haydn e Mozart. Ainda antes do intervalo, a orquestra e o pianista, interpretaram de Gubaidulina, o Concerto para piano e orquestra de câmara, Introitus, escrito em 1978. O seu título, refere-se a uma parte da liturgia da missa, é o primeiro duma série de obras com conteúdos religiosos. O canto do Introitus na missa é cantado à entrada dos padres e acólitos. Após o intervalo, e para encerrar este concerto, também de Gubaidulina, ouvimos a Sinfonia em doze andamentos, Stimmen... Verstummen... (Vozes... emudecem... ). As palavras que dão titúlo a esta composição, escrita em 1986, foram tiradas de um poema do poeta austríaco Francisco Tanzer. De todas as obras de Sofia Gubaidulina que ouvi, esta foi a que menos gostei. Gubaidulina é talvez a primeira mulher compositora a alcançar um estatuto que só os seus colegas masculinos atingiam devido ao reconhecimento de criadora essencial no começo deste século. A sua música tem a particularidade de captar quem a ouve devido à mistura de influências eslavas, tártaras, judaicas e ortodoxas russas. Neste ciclo foram tocadas obras de Bach, Beethoven Webern e Schostakovich, compositores por quem Gubaidulina nutre uma grande admiração.

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